sábado, 14 de junho de 2025

"Tudo o que ligardes na terra será ligado no céu"

 


     A frase dita por Jesus Cristo em Mateus 18:18 — "Em verdade vos digo que tudo o que ligardes na terra será ligado no céu, e tudo o que desligardes na terra será desligado no céu" — carrega um profundo significado espiritual. Essa declaração não confere a uma figura específica um poder absoluto, mas reconhece à comunidade dos crentes, reunida em nome de Cristo, a responsabilidade de agir com autoridade espiritual sob a direção da Palavra de Deus. Trata-se de uma concessão de autoridade, sim, mas com limites claros e com base na fidelidade à vontade divina.

     No contexto imediato do capítulo, Jesus está instruindo seus discípulos sobre como lidar com conflitos e pecados dentro da comunidade. Ele orienta que, se um irmão pecar, deve ser advertido pessoalmente; se não houver arrependimento, a correção deve ocorrer diante de testemunhas e, por fim, perante toda a igreja. Essa progressão culmina na concessão da autoridade espiritual de "ligar" e "desligar", ou seja, de aplicar correção, disciplina e até mesmo exclusão da comunhão em casos extremos de impenitência.

     Essa autoridade não é hierárquica ou papal, mas pertence à igreja como corpo coletivo dos fiéis. O “ligar” (bind) e o “desligar” (loose) são compreendidos como expressões judaicas que significam “proibir” e “permitir” ou, mais amplamente, “manter sob responsabilidade” ou “libertar”. Nesse sentido, a igreja local, guiada pela Bíblia e pelo Espírito Santo, tem autoridade para declarar o estado espiritual de uma pessoa com base em sua resposta ao evangelho e à correção fraterna. Quando a igreja age conforme a justiça e o amor de Deus, o céu confirma suas ações.

     Importante destacar que essa autoridade não é infalível. Ela deve ser exercida com temor, oração e obediência às Escrituras. A comunidade cristã não tem liberdade para “ligar” ou “desligar” conforme conveniências humanas, mas apenas em alinhamento com a verdade revelada por Deus. Assim, se uma igreja perdoa injustamente ou condena erroneamente, essa ação não é ratificada no céu, pois o critério último é sempre a justiça de Deus, não a decisão humana em si.

     Além da disciplina eclesiástica, muitos teólogos  também veem nessa passagem um reflexo do poder do evangelho: ao anunciar a salvação em Cristo, a igreja está “desligando” os pecadores arrependidos de suas culpas; ao rejeitarem essa mensagem, continuam “ligados” aos seus pecados. Isso conecta o ensino de Mateus 18:18 com outras passagens, como João 20:23 e 2 Coríntios 2:10, onde o perdão é ministrado em nome de Cristo, mas nunca fora da autoridade das Escrituras.

     Em suma, a frase de Jesus não outorga um poder autoritário, mas estabelece um princípio de responsabilidade espiritual coletiva. À igreja foi dada a autoridade de agir com discernimento e justiça, proclamando o perdão ou advertindo sobre o pecado, com base na Palavra. Tal autoridade é válida no céu quando exercida em conformidade com a vontade divina. Esse ensino reforça a seriedade da vida comunitária, a necessidade de santidade entre os crentes e a centralidade da Escritura como guia de toda autoridade espiritual.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

O Evangelho em 1 hora - Final